Eu vivia no meu próprio reino das águas claras. As imagens que ocupavam minha cabeça eram de rinocerontes falantes, bruxas que emergiam de grutas profundas, praias caipiras e o reflexo agudo do sol sobre o tecido translúcido e esverdeado do rio Piracicaba. Aventuras vividas de botina em chão de terra, um cachorro vira-lata chamado Leão (e sua enorme tigela de alumínio onde minha mãe despejava restos orgânicos e ele, no seu porte de lobisomem, vinha abocanhar). De alguma forma, a fantasia de Narizinho acompanhada pelo Príncipe Escamado ressoava neste recorte do meu cotidiano. Bastava repousar sobre um tédio infantil e os espíritos sublimes da imaginação vazavam por debaixo dos tanques d’água, se esgueiravam da casinha de ferramentas, desciam por entre os galhos da mangueira e me alcançavam pela corda do balanço de madeira.
Eram dias de lambari. Tenho a memória gravada até hoje em minhas narinas. Paisagens que ascendem ao menor odor da quirera e de escamas úmidas. A podridão verde que acumula sobre a lama das bordas do rio perfuma o ar e este tempo longínquo se recompõe com o mesmo frescor do hoje. A ilha da outra margem nunca foi visitada - e agradeço pela inacessibilidade. Povoei a mata vizinha com mistérios de criança, com meus medos, deixei todos lá. As bruxas, as mulas-sem-cabeça, os bichos que vêm cheios de bocas de arrancar pedaço, os corpos secos e os mortos vivos. Isolei-os no verso negativo do rancho.
A fita cassete da adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão dos anos 2000 rodava no aparelho e alimentava meu repertório. Bastava esse material e, numa transmissão em looping, novos detalhes despontavam. Curioso o que pode acontecer à mente infantil quando não se tem acesso a um número vasto de mídias, mas se compensa na paixão obsessiva por uma em específico. Essa narrativa se tornou uma régua que media meu crescimento ao mesmo tempo que nutria e me acompanhava. Nenhum rio é sempre o mesmo e essa regra se aplica às histórias que consumimos. Todos os dias a turma do sítio amadurecia junto de mim.
Existe esse espaço da minha formação que mantive preservado no meu íntimo. Essa casa do interior de poucos cômodos cujo acesso se dá depois de muita estrada, com porta para a cozinha que é virada para o grande fluxo de água que corre escuro e se aprofunda num leito desconhecido. O terreiro de milho que eu fazia questão de não frequentar como os outros espaços do rancho para que ele se mantivesse estranho a mim. A ocasião em que invadi o vizinho pelas grades arrebentadas e conheci pela primeira vez um pé de amora - e vi brotar um vermelho de sangue frutífero em meus dedos tão pequenos.
Visito pouco esse menino. Me esqueço de que é dessa nascente que brota tanta linguagem e tateamento do mundo. De um continente povoado por um pescador e uma mãe sensível às aptidões do filho, materiais de arte baratos para ocupar o corpo frenético e dar vazão a minha energia criativa, à vontade de mentir, de cavalgar a mula, de capturar as invisibilidades que os adultos não percebiam. Não sei dizer - e prefiro não buscar essa resposta - o quanto era ficcional e qual parcela era só realidade. Não havia fronteiras, somente este rio que se alcançava depois de uma escadaria empapada de musgo, moluscos e suas conchas. O reino das águas claras.






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