09/05/2026

Encontro com o gigante (pintura à guache)

Mesa e vista para prédios de São Paulo

Manchas como esboço (descobrindo a paisagem)

Arte final

Rosto próximo do gigante

06/05/2026

Vinte e oito no sol de touro

Na terça-feira 28 de abril completei vinte e oito anos. Esse é, desde sempre, meu número da sorte, isso que por pura simpatia com números pares e a junção dos dois formarem dez. Não tenho medo de envelhecer ou aversão à passagem do tempo: tenho criado memórias quentes ao passo que avanço e vou mostrando ao eu de antes novas realizações. Vejo esse processo de crescer como uma dança nas eras - e elas aglutinadas forma uma fita em espiral que dá para subir e descer. Sou uma pessoa bastante apegada às próprias lembranças e também animado por tudo o que ainda pode me acontecer. 


Me identifico com meu signo e a figura do touro, esse ser de bravura que recua e força investidas. Na manhã do meu aniversário saí para correr, recebi esse esboço mental e dediquei o dia ilustrando uma pintura para mim mesmo. Registrei um pouco do processo e gostei bastante do resultado. A arte já está enquadrada. Um ótimo ciclo novo para mim!

Rascunho

Trinta porcento da pintura

Arte final

02/04/2026

Equinócio de outono 2026 e chegada de Abril

Arte oficial do Equinócio de outono 2026

Abril chegou e esse é meu mês favorito. Antes disso, no meio de março, o outono também começou e passei a ensaiar uma arte comemorativa do equinócio. Todo ano tento dedicar um tempo de ofício para ilustrar o clima e os símbolos dessa transição sazonal que vem sendo cada vez mais importante para mim. Gosto de rituais, de perceber mudanças e aproximar os tempos. Infelizmente esse ano me enrolei com trabalho e outros compromissos e não pude refletir tanto sobre as peças de uma imagem, confeccioná-las com o cuidado que gosto e costurá-las numa figura maior. Mas isso tem também sua poética própria.

2026 tem sido até agora um ano bastante atribulado - mal tenho a oportunidade de desenhar cenas autorais. Me sinto às vezes como um toco de árvore, vestígios de uma fonte de matéria prima. Em meu bairro existem algumas raízes parcialmente podadas, acho muito bonito o ressurgimento de vida anunciado em galhos finos e folhas recém-nascidas. A textura que se desvela na superfície dessa anatomia podada é, também, muito bonita e interessante. As ondas desenhadas em círculos, as veias que se estendem fora a fora denunciando armas de corte e a umidade do amarelo ao marrom lembrando do orgânico.

Rascunho arte de Equinócio de outono 2026

Tenho gostado particularmente de cores que, até então, considerei feias ou pouco úteis no desenho. Amarelos escuros, azuis da medicina, marrons e cinzas cromáticos. Quando me refiro a elas como “feias” não faço distinção de valor. Acho que o feio tem em si uma importância expressiva e de aplicação enormes. É interessante visitar esses lugares cromáticos. Experimentá-los em minha linguagem.

Para mim, este período é frio, amadeirado, fresco, mas com mais folhas no chão do que penduradas em árvores. Reflete como me sinto e tenho encarado os dias. Abril é o mês do meu aniversário, eventos gostosos acontecem na periferia da data em que nasci: os tantos feriados, dias santos, datas para pensarmos o planeta terra. A temperatura passa a baixar e o azul do céu é lindo. Espero que seja um ciclo aconchegante e anunciador de boas novas para todos nós.

Primeira experimentação de ideia do Equinócio de outono 2026


30/03/2026

O desenho é uma estrutura para descer lajotas


Dediquei esse final de semana para atividades pessoais. Tenho poucas oportunidades de ficar sozinho, na cidade que hoje moro, executando as tarefas domésticas, conversando até anoitecer com meus vizinhos, treinando, saindo para almoçar em minha companhia e prolongar meu desenho ao longo de um domingo inteiro. A programação por aqui nesses últimos dias foi assim. Acabo não tendo tempo para olhar o celular - o que contribui para estar presente, atento e contemplativo ao que está à minha volta. As horas se dilatam e o ócio me convida a respirar numa cadência mais prazerosa.


No sábado de manhã fui treinar na academia do bairro. Treinei superiores. As velhinhas que vão cedo são muito fofas. Gosto desse horário por lá pois não tem muitas pessoas e os equipamentos ficam livres. A atendente de sábado é uma moça muito simpática. Nas pausas das séries olho por cima do muro e percebo como meu bairro é bonito e arborizado - a manhã ensolarada e de céu azul ajuda.


Tinha várias coisas para resolver. Como passo muito tempo entre cidades diferentes, divulgando meus projetos, em reuniões com editores, agentes e colegas de profissão, mal posso dar a devida atenção à casa. Chegando do treino limpei minha geladeira e armário, fiz a lista de compras, deixei a roupa lavando/secando e tomei um daqueles banhos pós faxina com direito a muita espuma na cabeça, me arrumei e fui resolver outros bo’s fora de casa.


Meu notebook começou a dar problemas recentemente - desligar e não ligar mais. Atualmente estou trabalhando num filme de animação muito promissor, com uma equipe muito legal e o equipamento acaba atrasando minha eficiência. Fui numa assistência que os vizinhos recomendaram e (aparentemente) o problema foi resolvido. Ali perto tem uma praça, a praça do coco, em que aos finais de semana recebe uma feirinha. Lembrei com um sorriso de orelha à orelha que aos sábados a barraca do feijão tropeiro abre! Peguei uma marmita, um caldo de cana com limão e me sentei embaixo dos coqueiros para almoçar.



Logo depois passeei pela feira atrás de um presente para minha amiga Carol Branco - parceira de longa data dos tempos de faculdade. Quando vou comprar um presente para alguma pessoa querida uso um termômetro pessoal e emocional de sentir o quanto de energia subjetiva um objeto carrega. Este termômetro apitou numa banca de acessórios artesanais e mais uma vez busquei o brinco ideal para a Carol. Comprei e presenteei. Espero que ela goste.



Fiz compras de mercado, organizei os itens na geladeira e armário, lavei roupa de cama e subi para descansar. Fiquei assistindo aquela série nova da Netflix baseada no acidente radioativo de Goiânia - muito boa. Cochilei e acordei com os vizinhos se reunindo na rua. Me juntei a eles, levei um vinho branco. Ficamos papeando, comendo pães que Hugo (um dos vizinhos) assou (ele vende suas panificações também na feira da praça do coco), bebendo e assistindo as crianças brincarem.



É engraçado o caos que se forma. Bichos: gatos, cachorros, saguis, saruês, maritacas, porco espinho, enfim, uma fauna completa. Pessoas: adultos reclamando, crianças aos berros, idosos caminhando. Bicicletas, carros, entregadores em cima de motos. É uma paisagem de desordem, mas muito descontraída e rara, que tenho o privilégio de participar. Tenho um imenso carinho por minha comunidade, por esse novo pedaço de família. Eles são únicos e especiais. Até ganhei um desenho do Dario - que já colei na geladeira.



No sábado à noite passei no aniversário da Carol, revi amigos antigos e a presenteei. Como cheguei tarde, logo voltei pois estava cansado. Dormi e, no dia seguinte, acordei cedo para desenhar. Estou há alguns meses trabalhando no filme de animação, em outros 4 livros (!!!) e num projeto de pesquisa - me sinto aqueles profissionais de circo equilibrando pratos. Mal sobra tempo para desenhar pra mim mesmo. Meu desenho é, para além de um trabalho e hobbie, um mecanismo de receber notícias sobre mim mesmo. Uma bússola, um oráculo. Portanto, dediquei o domingo unicamente a isso: desenhar. A partir daqui compartilho o que criei e o processo da última arte (meu celular ficou carregando enquanto fazia os outros e não consegui registrar o passo a passo deles).




Processo:





A única pausa que fiz foi para almoçar. Vesti minha nova camiseta predileta (presente da Bece, minha melhor amiga, que me trouxe dos EUA um merch oficial da Adrianne Lenker <3) e fui até a Unicamp comer no restaurante universitário. O cardápio era arroz, feijão, polenta mole, salada de beterraba e carne bovina ao sugo. Estava muito gostoso. De suco tinha refresco de tangerina e de sobremesa melancia (a sobremesa que mais gosto de comer nesses dias quentes). 




Por ser domingo as ruas e a universidade estavam vazias - o que eu gosto, me dá uma sensação cinematográfica. Vi muitas flores, insetos e senti o cheiro do lago no trajeto. Voltei ainda mais inspirado para casa. 



No entardecer fiz uma corrida de 3km e, na volta, me reuni de novo com os vizinhos. A saga da noite foi tirar um dos gatos de cima da árvore. Não precisamos de bombeiro. Folheei o sketchbook de uma das vizinhas, a Kathrin. Ela é quem encaderna meus sketchbooks (eu disse, sou muito privilegiado em assunto de vizinhança) e é uma aquarelista fantástica! Olha essa dupla de paisagens que ela fez e que capturei.


Neste final de semana revisitei os álbuns do Sufjan Stevens. É um artista que sempre escuto - mas especialmente no outono se torna minha trilha sonora predileta. Também dei mais atenção aos álbuns do Bon Iver. Para treinar escutei a discografia da Marina Sena. Torci pela Ana Paula no BBB e nos intervalos desses dias gostosos descansei a cabeça. Até!



05/01/2026

Cavalaria 2026



O quintal da minha infância foi um pasto cercado por uma mata. Quando minha mãe ia trabalhar, ela me deixava aos cuidados de uma senhorinha da vizinhança, já falecida. Seu marido ainda é vivo, não sei seu nome, mas sei que ele é quem povoava e ainda faz animada a extensa área verde que reflete a luz do sol na frente da casa dos meus avós. Desde sempre seus cavalos desenhavam trilhas por entre a grama e meu fascínio de criança diante daquele bicho era enorme. Me recordo de assistí-los em dias tempestuosos, sob nuvens nefastas e escuras, os pangarés brancos e amarronzados ignorando cortinas de vento e água cortante investindo contra seus corpos. Ainda assim corriam, pegavam impulso com a catástrofe.

Comecei a correr naquele mesmo bairro, durante a pandemia. Nesse período também me fiz residente contínuo do pasto. Intercalava meus dias entre praticar exercícios de caminhada e trotar pelo asfalto, ou ir acompanhado de um livro e me deitar entre o capim e os cavalos. Dessa forma alterei minha anatomia e li cerca de 40 obras em dois anos. Desde que me mudei de casa, acabei tendo menos tempo para as atividades de cardio e leitura, ainda que me esforce em praticá-las. Porém esse afastamento geográfico não diminuiu meu apreço pelos bichos. Volta e meia regresso para onde cresci, me embrenho no mato e ouso acariciar os alazões do senhorzinho que se mantém de pé junto de suas criações.


Este é o ano do cavalo de fogo. Estou me exercitando para voltar a correr, após fratura no joelho direito. Me vejo assim quando corro, feito um corcel. A velocidade, o impacto com o qual eles correm, o avanço sem retorno, a aventura e destreza, tudo isso me inspira sobre eles. Em outra vida devo ter feito parte desse grupo - no fundo tenho essa sensação. Me recordo também da história do meu avô ter sido pisoteado por um cavalo, esse fato me marcou, mas não me gerou receio do bicho. Eles são imprevisíveis, fortes, porém contidos. Me admira essa natureza de quem sabe o raio de fúria destrutiva inerente a si, mas que opta por domesticá-la, guardá-la em sigilo e somente dar vazão no que tange movimentos de liberdade e deslocamento.

Os cavalos são bichos de sonho e de mito também. Desde sempre na nossa história: dos muros das cavernas no paleolítico às tapeçarias feitas à mão. Nos murais, como esculturas, em livros ilustrados. Assim como povoavam o largo gramado que me serviu como primeiro território, seguem povoando meu imaginário, me guiando pelo caminho. Entre o bicho e eu não vejo diferença ou fronteira. Por isso acredito neste novo ciclo com coragem.


24/12/2025

Postais


Todo ano tenho o costume de desenhar um postal de boas festas e enviá-los a uma lista de transmissão do whatsapp. Faço isso desde 2019, quando adquiri pela primeira vez um ipad, e seleciono aqueles que estiveram mais presentes ao longo do ano em minha vida para receber a arte anual exclusiva. A cada ciclo se torna mais interessante observar as ilustrações que crio para manter a tradição. As escolhas estéticas que faço nas artes refletem meus gostos, humor e evolução técnica. Por isso decidi juntar os postais desde 2020 (infelizmente perdi o de 2019, mas o primeiro não era nada demais).


Em 2020 elaborei uma arte baseada nas cores que mais me geraram interesse na época. Lembro de estar obcecado por artistas cottagecore no instagram e perceber que texturas e ruídos acendiam ainda mais esse aspecto rural e aconchegante. Incluí uma versão meiga de mim na imagem, acho que desde então não voltei a me desenhar dessa forma, com essas bochechas e esse olhar. Um fato curioso é que só voltei a incluir a uma personificação de mim nos postais anos mais tarde - em 2024.


Ao fim de 2021 eu havia criado uma monografia densa acerca de símbolos populares. Após o encerramento do meu ciclo universitário em Artes Visuais minha mente seguiu povoada por signos mágicos presentes em tapeçarias e obras originárias. As formas geométricas, figuras de perfil e criatura mística compõem um imaginário que trago até hoje. Me lembro de desenhar este postal na própria véspera, deitado numa cama simples em uma edícula com piscina que minha família havia alugado, mas onde somente eu passei a noite. Depois que disparei a imagem, lembro de sair pelo condomínio caminhando e ouvindo o álbum homônimo do Bon Iver.


Em 2022 dei seguimento à linha mística. Quis enaltecer o caráter de postal da imagem e acrescentei um selo em detalhe. Ambas as criaturas que protagonizam a composição são um retrato do natal e do ano novo. Pensei naquela canção que versa sobre se despedir do ano velho e receber um recém nascido. Me lembro de programas de televisão colocando um senhor de idade acompanhado por um neném para representar essa troca de ciclos. As texturas que incluí nos corpos dos personagens são as mesmas formas que estampam as áreas de fundo do Jeguinho Tenório - livro que já estava em desenvolvimento na época.

Ah, esse de 2023 deve ser meu favorito! Como falei na introdução, o estilo das imagens reflete perfeitamente como me sentia na época, meus interesses e pesquisas gráficas. Neste ponto eu estava obcecado por risografia. Estava super contente com pincéis digitais que tinha recém adquirido para o Procreate e fazendo várias experimentações. Confesso que arrasei demais nesse postal. Gosto muito das cores, de como distribuí as áreas de ilustrações, das figuras que decidi incluir - a árvore, por exemplo, é uma tentativa de deslocar a noção de pinheiro para algo mais brasileiro, então pensei numa bananeira como adorno natalino. As texturas estão maravilhosas, quando olho a imagem me parece de fato com um postal que foi impresso de forma barata e circulou a ponto de perder qualidade.


O de 2024 não tem uma história tão boa, infelizmente. Desenhei ele enquanto acompanhava meu avô num quarto de hospital. Ele estava acamado, saindo de um quadro meio delicado e levei meu ipad para matar o tempo nas horas em que ele dormia ou queria ficar em silêncio (o que era quase sempre). Em 2024 desenvolvi essa linguagem em meu trabalho com linhas e cores chapadas simples. Acredito que depois de tantos anos desenhando sem contorno, minha técnica foi se sofisticando e gravando melhor o gestual anatômico - então, quando utilizei o recurso do traçado em torno da figura, tenho a impressão de que desaguei tudo o que aprendi sobre pose e movimento. Gosto bastante dos ornamentos desse desenho, da árvore seca e da ideia não de uma estrela estática, mas de um calor que flui e se espalha do topo do tronco.

Eu nunca divulgo a arte anual antes de enviá-la às pessoas. Na realidade, nunca publico nenhum dos postais (então essa é uma novidade por aqui). Como este é um espaço silencioso, decidi fazer esse fio e, para fechá-lo, incluir a arte de 2025! A edição mais recente foi criada no Photoshop - quebrando a tradição de ilustrar todos os postais no Procreate. Numa tarde de ócio comecei a esboçar ideias no computador e quando vi já estava pronta.


Acho que este é também um dos meus postais prediletos, junto com o de 2023. Sinto até que ele é uma evolução deste último citado. Na composição uni várias linguagens que vim estudando nos últimos anos. Minha figura com a pomba foi pintada num estilo que desenvolvi em 2025, num processo que simula analógico e usa cores vibrantes como base. Incorporei tramas de ponto cruz, sobreposições, figuras populares… enfim, acho que essa é uma síntese perfeita do meu trabalho, estou muito contente com a sofisticação e qualidade do cartão postal de boas festas que encerra esse ciclo.