05/01/2026

Cavalaria 2026



O quintal da minha infância foi um pasto cercado por uma mata. Quando minha mãe ia trabalhar, ela me deixava aos cuidados de uma senhorinha da vizinhança, já falecida. Seu marido ainda é vivo, não sei seu nome, mas sei que ele é quem povoava e ainda faz animada a extensa área verde que reflete a luz do sol na frente da casa dos meus avós. Desde sempre seus cavalos desenhavam trilhas por entre a grama e meu fascínio de criança diante daquele bicho era enorme. Me recordo de assistí-los em dias tempestuosos, sob nuvens nefastas e escuras, os pangarés brancos e amarronzados ignorando cortinas de vento e água cortante investindo contra seus corpos. Ainda assim corriam, pegavam impulso com a catástrofe.

Comecei a correr naquele mesmo bairro, durante a pandemia. Nesse período também me fiz residente contínuo do pasto. Intercalava meus dias entre praticar exercícios de caminhada e trotar pelo asfalto, ou ir acompanhado de um livro e me deitar entre o capim e os cavalos. Dessa forma alterei minha anatomia e li cerca de 40 obras em dois anos. Desde que me mudei de casa, acabei tendo menos tempo para as atividades de cardio e leitura, ainda que me esforce em praticá-las. Porém esse afastamento geográfico não diminuiu meu apreço pelos bichos. Volta e meia regresso para onde cresci, me embrenho no mato e ouso acariciar os alazões do senhorzinho que se mantém de pé junto de suas criações.


Este é o ano do cavalo de fogo. Estou me exercitando para voltar a correr, após fratura no joelho direito. Me vejo assim quando corro, feito um corcel. A velocidade, o impacto com o qual eles correm, o avanço sem retorno, a aventura e destreza, tudo isso me inspira sobre eles. Em outra vida devo ter feito parte desse grupo - no fundo tenho essa sensação. Me recordo também da história do meu avô ter sido pisoteado por um cavalo, esse fato me marcou, mas não me gerou receio do bicho. Eles são imprevisíveis, fortes, porém contidos. Me admira essa natureza de quem sabe o raio de fúria destrutiva inerente a si, mas que opta por domesticá-la, guardá-la em sigilo e somente dar vazão no que tange movimentos de liberdade e deslocamento.

Os cavalos são bichos de sonho e de mito também. Desde sempre na nossa história: dos muros das cavernas no paleolítico às tapeçarias feitas à mão. Nos murais, como esculturas, em livros ilustrados. Assim como povoavam o largo gramado que me serviu como primeiro território, seguem povoando meu imaginário, me guiando pelo caminho. Entre o bicho e eu não vejo diferença ou fronteira. Por isso acredito neste novo ciclo com coragem.


24/12/2025

Postais


Todo ano tenho o costume de desenhar um postal de boas festas e enviá-los a uma lista de transmissão do whatsapp. Faço isso desde 2019, quando adquiri pela primeira vez um ipad, e seleciono aqueles que estiveram mais presentes ao longo do ano em minha vida para receber a arte anual exclusiva. A cada ciclo se torna mais interessante observar as ilustrações que crio para manter a tradição. As escolhas estéticas que faço nas artes refletem meus gostos, humor e evolução técnica. Por isso decidi juntar os postais desde 2020 (infelizmente perdi o de 2019, mas o primeiro não era nada demais).


Em 2020 elaborei uma arte baseada nas cores que mais me geraram interesse na época. Lembro de estar obcecado por artistas cottagecore no instagram e perceber que texturas e ruídos acendiam ainda mais esse aspecto rural e aconchegante. Incluí uma versão meiga de mim na imagem, acho que desde então não voltei a me desenhar dessa forma, com essas bochechas e esse olhar. Um fato curioso é que só voltei a incluir a uma personificação de mim nos postais anos mais tarde - em 2024.


Ao fim de 2021 eu havia criado uma monografia densa acerca de símbolos populares. Após o encerramento do meu ciclo universitário em Artes Visuais minha mente seguiu povoada por signos mágicos presentes em tapeçarias e obras originárias. As formas geométricas, figuras de perfil e criatura mística compõem um imaginário que trago até hoje. Me lembro de desenhar este postal na própria véspera, deitado numa cama simples em uma edícula com piscina que minha família havia alugado, mas onde somente eu passei a noite. Depois que disparei a imagem, lembro de sair pelo condomínio caminhando e ouvindo o álbum homônimo do Bon Iver.


Em 2022 dei seguimento à linha mística. Quis enaltecer o caráter de postal da imagem e acrescentei um selo em detalhe. Ambas as criaturas que protagonizam a composição são um retrato do natal e do ano novo. Pensei naquela canção que versa sobre se despedir do ano velho e receber um recém nascido. Me lembro de programas de televisão colocando um senhor de idade acompanhado por um neném para representar essa troca de ciclos. As texturas que incluí nos corpos dos personagens são as mesmas formas que estampam as áreas de fundo do Jeguinho Tenório - livro que já estava em desenvolvimento na época.

Ah, esse de 2023 deve ser meu favorito! Como falei na introdução, o estilo das imagens reflete perfeitamente como me sentia na época, meus interesses e pesquisas gráficas. Neste ponto eu estava obcecado por risografia. Estava super contente com pincéis digitais que tinha recém adquirido para o Procreate e fazendo várias experimentações. Confesso que arrasei demais nesse postal. Gosto muito das cores, de como distribuí as áreas de ilustrações, das figuras que decidi incluir - a árvore, por exemplo, é uma tentativa de deslocar a noção de pinheiro para algo mais brasileiro, então pensei numa bananeira como adorno natalino. As texturas estão maravilhosas, quando olho a imagem me parece de fato com um postal que foi impresso de forma barata e circulou a ponto de perder qualidade.


O de 2024 não tem uma história tão boa, infelizmente. Desenhei ele enquanto acompanhava meu avô num quarto de hospital. Ele estava acamado, saindo de um quadro meio delicado e levei meu ipad para matar o tempo nas horas em que ele dormia ou queria ficar em silêncio (o que era quase sempre). Em 2024 desenvolvi essa linguagem em meu trabalho com linhas e cores chapadas simples. Acredito que depois de tantos anos desenhando sem contorno, minha técnica foi se sofisticando e gravando melhor o gestual anatômico - então, quando utilizei o recurso do traçado em torno da figura, tenho a impressão de que desaguei tudo o que aprendi sobre pose e movimento. Gosto bastante dos ornamentos desse desenho, da árvore seca e da ideia não de uma estrela estática, mas de um calor que flui e se espalha do topo do tronco.

Eu nunca divulgo a arte anual antes de enviá-la às pessoas. Na realidade, nunca publico nenhum dos postais (então essa é uma novidade por aqui). Como este é um espaço silencioso, decidi fazer esse fio e, para fechá-lo, incluir a arte de 2025! A edição mais recente foi criada no Photoshop - quebrando a tradição de ilustrar todos os postais no Procreate. Numa tarde de ócio comecei a esboçar ideias no computador e quando vi já estava pronta.


Acho que este é também um dos meus postais prediletos, junto com o de 2023. Sinto até que ele é uma evolução deste último citado. Na composição uni várias linguagens que vim estudando nos últimos anos. Minha figura com a pomba foi pintada num estilo que desenvolvi em 2025, num processo que simula analógico e usa cores vibrantes como base. Incorporei tramas de ponto cruz, sobreposições, figuras populares… enfim, acho que essa é uma síntese perfeita do meu trabalho, estou muito contente com a sofisticação e qualidade do cartão postal de boas festas que encerra esse ciclo.

13/12/2025

Seguindo o coração da linha




No início deste ano organizei uma oficina de gravura com meus amigos no Xilomóvel (ateliê que participo já há um ano). A experiência de nos reunirmos num espaço para expandir nossos conhecimentos sobre arte analógica deu tão certo que repetimos a dose, mas dessa vez pensei em um outro tema: encadernação artesanal. Essa atividade surgiu principalmente porque meu grande parceiro de publicações independentes, o Costuradus (editora dirigida pelo Helder) - um dos mais altos nomes de dobra, costura e confecção de pequenos livretos manuais - tem feito oficinas em Sescs e outras feiras e por que não aproveitar a amizade para contratá-lo?


Me sinto muito sortudo pelas amizades que tenho. É sempre um espanto olhar em volta e perceber que tenho proximidade de pessoas que não são somente cheias de talento, mas também gentis e movidas pela simples vontade de fazer, criar, inventar… Especialmente em coletivo. Temos humor e interesses em comum e todos esses aspectos combinados rendem encontros que preenchem o tempo da mais valiosa alegria e realização. Sempre bato na tecla de que projetar em união torna o processo duplamente mais prazeroso. Com isso no coração, organizei a oficina de encadernação para fecharmos o ano.


Recrutei meus amigos mais queridos para compor uma turma. Bruno, Kahn e David são os artistas do estúdio Ilustrata, parceiros conterrâneos que topam qualquer aventura gráfica. Tati, Lil e Marina são respectivamente uma streamer, ilustradora e chefe de cozinha que completam o time. A ilustre Paula Cruz atendeu nosso convite e junto de Pedro, seu companheiro, viajaram lá do Rio de Janeiro até o interior de São Paulo só para viver isso com a gente - fiquei muito lisonjeado do esforço de deslocamento até aqui, são duas pessoas muito queridas que acompanho já há algum tempo nas redes e que tivemos algumas oportunidades de encontro. Thunder (ou Matt) foi o milagre de Natal que chegou de última hora e fechou a turma com chave de ouro. Fora os componentes, Luciana e Helder, fundadora do Xilomóvel e oficineiro, são não só profissionais que nos acompanharam, mas também grandes amizades para além do profissional.


Foi com esse time que trilhamos dois dias de oficina sobre encadernação japonesa. Munidos de papéis, linhas, agulhas, cola e retalhos, criamos nossos próprios cadernos entre quarta e quinta-feira. Helder nos instruiu ao refile, dobras, costuras e outras minúcias para se obter um volume desse gênero. Para mim particularmente o início foi bem difícil de compreender, tenho dificuldade de acompanhar instruções abstratas que se referem a atos formais (a matemática funciona desse jeito em minha cabeça). Mas com as repetições fui pegando o jeito e me encantei pelo caminho prático de unir papéis e obter algo maior.
 

Sou grande usuário de cadernos. Desde que me dou por gente, consumo esse material como suporte de desenho. Me recordo de ser criança e ir na mercearia do bairro comprar aqueles aramados pautados de 100 folhas com capa de surfista para preencher com rabiscos de Pokémon. Dada essa trajetória, estou num percurso de pensar um projeto de pesquisa voltado para este tema. Me instrumentalizar de modo que eu tenha autonomia para criar esses objetos é algo que enriquece ainda mais o corpo textual sobre o hábito de manter diários visuais que falem sobre mim e sobre o mundo. Claro que é algo alheio ao que já faço (ilustrar), mas acredito que com a repetição da prática que aprendemos e com a gentil consultoria do Helder, vou refinando a habilidade.


O recheio (para não dizer a camada principal) do tempo que passamos no ateliê foi pura zombaria. A imagem perfeita para representar o que vivemos juntos na sala é, sem dúvidas, uma sala de aula no fundamental 2. Não digo aqui “ensino médio” pois nesse estágio da vida vemos adolescentes emburrados e arrogantes. No fundamental 2 existe tanto um desprendimento de responsabilidades como uma tiração de sarro sobre qualquer detalhe que passe na frente dos olhos. Tudo era motivo para escrachar - quem aguenta não fazer piada sobre furo, buraco, agulha?


Escrevo tudo isso rindo sozinho. Acho que nada é mais importante nesse processo de se tornar adulto do que poder acessar essas ilhas de relaxamento coletivo, em que somos íntimos o suficiente para fazer algazarra e matar as saudades em tom alto. Ah, e não é porque somos bagunceiros que não tiramos 10 - os cadernos saíram sim, e lindos por sinal! Ao fim do segundo dia organizamos um amigo secreto e nos presenteamos uns aos outros com os sketchbooks que criamos.
 

Fora as produções, fizemos o que mais gostamos além de arte: comemos juntos. Fizemos boas pausas e merendas. Almoçamos no Bagdá, restaurante de comida árabe de Barão Geraldo. Tomamos sorvete (duas vezes!) no sorvete em camadas. Passamos pela praça do coco e enchemos a mesinha com sucos e quitutes do interior. Lotamos o salão do guaco no último dia de oficina. A cereja do bolo de me reunir com esse pessoal é sempre o ponto de reabastecimento de energias.


Para concluir os dias de trabalho (que mais soaram como dias de pura diversão) regressamos à Limeira e na casa do Bruno viramos a noite e a madrugada. Sem pai ou mãe para controlar essas crianças e dosar a farra, estendemos os minutos e nos engajamos na euforia de estarmos presentes num mesmo espaço. Beliscamos porcarias e nos deleitamos num jantar orquestrado pelos anfitriões Bruno e Tati. Assistimos à uma apresentação das fotos analógicas da viagem da família Ilustrata pelo Japão. Fofocamos, conversamos sobre tudo o que faltou conversar, nos distribuímos pelos cômodos e alargamos as paredes com nossas risadas. Quando nos demos conta eram quatro da manhã e fazia mais sentido dar continuidade aos papos no dia seguinte.


Na sexta-feira almoçamos, visitamos o novo estúdio dos meninos e fechamos a viagem com jogos. Momentos como esse me remetem às tardes dos anos noventa e dois mil. Do descompromisso e da espontaneidade que traz para a mesa anúncios de como a vida pode (e deve) ser boa. As oficinas e o ofício artístico são partes importantes dessas reuniões, mas para ser sincero, parecem um canal, uma mera desculpa para vivenciar essa dinâmica em grupo. Fico feliz que ambas as forças nutram uma à outra: a busca por se aprofundar nas linguagens da arte e a simples ideia de fazer algazarra. As páginas dos cadernos ainda estão zeradas, mas folheando minha memória vejo imagens das quais já sinto saudades (e que me apontam para, muito em breve, usar como desculpa para um novo encontro).

16/05/2025

Pandora


Ontem (15.05) fiz minha primeira palestra na Pandora Escola de Artes. Fui convidado para integrar a série “Pandora Apresenta: Viver de Arte”, que tem o intuito de trazer diferentes artistas que já passaram pelos cursos para compartilhar suas trajetórias de carreira no mundo da ilustração. Sou um aluno egresso da modalidade de “ilustração de mercado”, entrei nas aulas a partir de uma bolsa que consegui batendo na porta da coordenação e que, mais tarde, me rendeu um estágio em estúdio de animação na mesma cidade (Campinas).

Mas minha história com a escola começou antes disso: frustrado com os resultados insuficientes nos vestibulares, acabei desistindo de fazer uma faculdade e considerei cursar a Pandora como método de ensino superior. Mal sabia eu que, uma semana depois, uma chamada do Prouni me contemplaria com isenção integral para o bacharel em Artes Visuais da PUC Campinas - o curso do rio mudou e entrei na graduação.

Participando do ecossistema de ilustradores de Campinas - feiras, eventos, palestras e afins - fui criando uma admiração (e até certa idolatria) pelo corpo docente da Pandora. É engraçado hoje olhar para o Vinícius adolescente e perceber a natureza do carinho e deslumbramento que eu tinha por professores em ascensão nas suas carreiras. Eles estavam em um patamar distante do meu.

Naquela época eu era praticamente uma criança cheia de sonhos feitos à mão, instrumentos improvisados, cadernos em calhamaço preenchidos por repetições, raiva, suor e vontade de ser algo que eu ainda não podia alcançar. E, por outro lado, aquelas figuras eram límpidas e iridescentes, pareciam saber um segredo sobre elas mesmas e ter a tranquilidade de fluir pela linguagem da arte sem o amadorismo febril de quem acabou de chegar. Por mais que isso pareça se referir a uma hierarquia, o caso era o contrário: sempre me senti acolhido e bem treinado pelos mestres. Entendi desde cedo que humildade e um bom trabalho iriam me polir minhas arestas pontiagudas.

E aqui estou agora. Divido mesa de projeto com meus antigos professores, dou conselho a alguns deles, apresento novidades, técnicas, temas, trago peculiaridades e pontos de vista lapidados. Fico sobretudo grato pela abertura e confiança que eles deram à mim. Tenho dificuldade em reconhecer a dimensão do que produzi e do nome que estou criando - e de forma alguma acho que isso seja uma modéstia, penso que essa ética é produto de aceitar minhas raízes e apagar o deslumbramento de forma a dar lugar ao encantamento (e isso me abre os olhos principalmente ao que é simples).

Não olho para meus dias de aluno com a postura de superação. Ele, o Vinícius afobado, que tomava ônibus tarde da noite depois de passar o dia estagiando e tendo aulas, está ao meu lado. Carrego ele pendurado em meu molho de chaves, como um pingente que toda vez que caminho e escalo, samba no peito e gera cócegas de alívio, trazendo a lembrança da mudança e impermanência de identidade, dos sonhos e aspirações. Estou muito feliz por ter sido esse adolescente vulcânico, que jurava que nunca iria chegar em outros lugares. De certo modo isso me instigou forte persistência em buscar o oposto dessa condição - pensava que, vindo de família simples, não podia me dar luxos de intervalos (e a paixão pela arte tornou a jornada divertida).

Que exercício espantoso o de aproximar o passado ao presente. Lá atrás eu almejava tantas coisas e elas se tornaram reais - melhor, a vida remodelou com seu mistério cada pretensão minha e incluiu novas palmeiras, oasis e fauna neste panfleto amarelado e desgastado para o qual eu olhava todas as noites e tinha como destino final. A viagem sempre se torna diferente, mas eu continuo o mesmo. É um grande privilégio guardar todas as memórias daquela época, com tanto frescor e consciência. Não ter me esquecido do sentimento de angústia juvenil e poder acolhê-lo com a certeza de que fizemos o ciclo completo. Assim como eu olho o passado de modo translúcido, eu tenho a impressão de que o olhar do passado também me alcançava onde estou agora - profecia, previsão, otimismo. Que bom que sonhei com tanta verdade.

27/03/2025

Reinações de menino


Hoje acordei com minhas lembranças de Pedrinho: as idas ao rancho com minha família, que forçava a escutar repetidas vezes o cd do sítio do pica-pau amarelo durante as viagens de carro. Meu padrasto era pescador, trabalhava com isso, arrumava molinetes, varas de pesca e tudo mais. Minha mãe me colocava no banco de trás com canetinhas sortidas vendidas por ambulantes que passavam na loja de pesca, um caderno de desenho capa mole e alguns salgados e sucos. Eu era rico em revistinhas, uma em especial se tornou até puída e ganhou rasgos de tanta leitura: uma com a Emília na capa, onde os personagens de Monteiro Lobato vinham na edição apresentando para as crianças o programa fome zero do governo Lula.


Eu vivia no meu próprio reino das águas claras. As imagens que ocupavam minha cabeça eram de rinocerontes falantes, bruxas que emergiam de grutas profundas, praias caipiras e o reflexo agudo do sol sobre o tecido translúcido e esverdeado do rio Piracicaba. Aventuras vividas de botina em chão de terra, um cachorro vira-lata chamado Leão (e sua enorme tigela de alumínio onde minha mãe despejava restos orgânicos e ele, no seu porte de lobisomem, vinha abocanhar). De alguma forma, a fantasia de Narizinho acompanhada pelo Príncipe Escamado ressoava neste recorte do meu cotidiano. Bastava repousar sobre um tédio infantil e os espíritos sublimes da imaginação vazavam por debaixo dos tanques d’água, se esgueiravam da casinha de ferramentas, desciam por entre os galhos da mangueira e me alcançavam pela corda do balanço de madeira.


Eram dias de lambari. Tenho a memória gravada até hoje em minhas narinas. Paisagens que ascendem ao menor odor da quirera e de escamas úmidas. A podridão verde que acumula sobre a lama das bordas do rio perfuma o ar e este tempo longínquo se recompõe com o mesmo frescor do hoje. A ilha da outra margem nunca foi visitada - e agradeço pela inacessibilidade. Povoei a mata vizinha com mistérios de criança, com meus medos, deixei todos lá. As bruxas, as mulas-sem-cabeça, os bichos que vêm cheios de bocas de arrancar pedaço, os corpos secos e os mortos vivos. Isolei-os no verso negativo do rancho.


A fita cassete da adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão dos anos 2000 rodava no aparelho e alimentava meu repertório. Bastava esse material e, numa transmissão em looping, novos detalhes despontavam. Curioso o que pode acontecer à mente infantil quando não se tem acesso a um número vasto de mídias, mas se compensa na paixão obsessiva por uma em específico. Essa narrativa se tornou uma régua que media meu crescimento ao mesmo tempo que nutria e me acompanhava. Nenhum rio é sempre o mesmo e essa regra se aplica às histórias que consumimos. Todos os dias a turma do sítio amadurecia junto de mim.

Existe esse espaço da minha formação que mantive preservado no meu íntimo. Essa casa do interior de poucos cômodos cujo acesso se dá depois de muita estrada, com porta para a cozinha que é virada para o grande fluxo de água que corre escuro e se aprofunda num leito desconhecido. O terreiro de milho que eu fazia questão de não frequentar como os outros espaços do rancho para que ele se mantivesse estranho a mim. A ocasião em que invadi o vizinho pelas grades arrebentadas e conheci pela primeira vez um pé de amora - e vi brotar um vermelho de sangue frutífero em meus dedos tão pequenos.


Visito pouco esse menino. Me esqueço de que é dessa nascente que brota tanta linguagem e tateamento do mundo. De um continente povoado por um pescador e uma mãe sensível às aptidões do filho, materiais de arte baratos para ocupar o corpo frenético e dar vazão a minha energia criativa, à vontade de mentir, de cavalgar a mula, de capturar as invisibilidades que os adultos não percebiam. Não sei dizer - e prefiro não buscar essa resposta - o quanto era ficcional e qual parcela era só realidade. Não havia fronteiras, somente este rio que se alcançava depois de uma escadaria empapada de musgo, moluscos e suas conchas. O reino das águas claras.