O quintal da minha infância foi um pasto cercado por uma mata. Quando minha mãe ia trabalhar, ela me deixava aos cuidados de uma senhorinha da vizinhança, já falecida. Seu marido ainda é vivo, não sei seu nome, mas sei que ele é quem povoava e ainda faz animada a extensa área verde que reflete a luz do sol na frente da casa dos meus avós. Desde sempre seus cavalos desenhavam trilhas por entre a grama e meu fascínio de criança diante daquele bicho era enorme. Me recordo de assistí-los em dias tempestuosos, sob nuvens nefastas e escuras, os pangarés brancos e amarronzados ignorando cortinas de vento e água cortante investindo contra seus corpos. Ainda assim corriam, pegavam impulso com a catástrofe.
Comecei a correr naquele mesmo bairro, durante a pandemia. Nesse período também me fiz residente contínuo do pasto. Intercalava meus dias entre praticar exercícios de caminhada e trotar pelo asfalto, ou ir acompanhado de um livro e me deitar entre o capim e os cavalos. Dessa forma alterei minha anatomia e li cerca de 40 obras em dois anos. Desde que me mudei de casa, acabei tendo menos tempo para as atividades de cardio e leitura, ainda que me esforce em praticá-las. Porém esse afastamento geográfico não diminuiu meu apreço pelos bichos. Volta e meia regresso para onde cresci, me embrenho no mato e ouso acariciar os alazões do senhorzinho que se mantém de pé junto de suas criações.
Comecei a correr naquele mesmo bairro, durante a pandemia. Nesse período também me fiz residente contínuo do pasto. Intercalava meus dias entre praticar exercícios de caminhada e trotar pelo asfalto, ou ir acompanhado de um livro e me deitar entre o capim e os cavalos. Dessa forma alterei minha anatomia e li cerca de 40 obras em dois anos. Desde que me mudei de casa, acabei tendo menos tempo para as atividades de cardio e leitura, ainda que me esforce em praticá-las. Porém esse afastamento geográfico não diminuiu meu apreço pelos bichos. Volta e meia regresso para onde cresci, me embrenho no mato e ouso acariciar os alazões do senhorzinho que se mantém de pé junto de suas criações.
Este é o ano do cavalo de fogo. Estou me exercitando para voltar a correr, após fratura no joelho direito. Me vejo assim quando corro, feito um corcel. A velocidade, o impacto com o qual eles correm, o avanço sem retorno, a aventura e destreza, tudo isso me inspira sobre eles. Em outra vida devo ter feito parte desse grupo - no fundo tenho essa sensação. Me recordo também da história do meu avô ter sido pisoteado por um cavalo, esse fato me marcou, mas não me gerou receio do bicho. Eles são imprevisíveis, fortes, porém contidos. Me admira essa natureza de quem sabe o raio de fúria destrutiva inerente a si, mas que opta por domesticá-la, guardá-la em sigilo e somente dar vazão no que tange movimentos de liberdade e deslocamento.
Os cavalos são bichos de sonho e de mito também. Desde sempre na nossa história: dos muros das cavernas no paleolítico às tapeçarias feitas à mão. Nos murais, como esculturas, em livros ilustrados. Assim como povoavam o largo gramado que me serviu como primeiro território, seguem povoando meu imaginário, me guiando pelo caminho. Entre o bicho e eu não vejo diferença ou fronteira. Por isso acredito neste novo ciclo com coragem.







































