02/07/2026

O bom filho a mata torna

Acredito que o corpo guarda a memória dos nossos lugares favoritos e está sempre tentando voltar.


Alguns dias atrás visitei a área em que cresci, no bairro dos meus avós. Foi ali também onde passei a pandemia. Todos os dias do isolamento eu adentrava na mata acompanhado por um livro e materiais de arte e ficava lendo, desenhando e observando o entorno. Hoje em dia não tenho mais a mesma frequência de visita, pois moro em outra cidade. Entretanto ainda sinto um grande mistério e pertencimento nesse bosque, afinal de contas, é meu lugar de origem. É para lá que vou sempre que desejo retomar um contato mais profundo com as árvores e os bichos, contemplar os vazios e os silêncios até me deparar com alguma surpresa, buscar inspiração e também notícias de mim.




Me sinto muito sortudo por ter crescido aqui. Mesmo que afastado dos centros, tive acesso a uma cultura muito especial. Os vizinhos são os mesmos, o senhor que mantém criação de bichos também (sua companheira já faleceu, era uma senhora muito simpática que inclusive cuidava de mim quando eu era bem pequeno). Valorizo esse ambiente que além de saudável e tranquilo, é também muito bonito. Para mim, o paraíso na terra são os pores-do-sol de inverno que colorem a grama com um dourado indescritível.




Nessa última passagem em específico fui presenteado com dois climas distintos: céu nublado e dia ensolarado. No primeiro caso, uma neblina se assentou na mata e criou uma atmosfera mística e profunda, como se as nuvens estivessem engolindo a cidade e só aquela área existisse de verdade. Fez frio também, então pude andar por todo o gramado sentindo o vento no rosto. Havia chovido durante a semana e os galhos estavam úmidos, o capim gotejava orvalho e alguns insetos saiam de suas tocas.




Me lembro de uma vez sonhar, durante a pandemia, com esse mesmo cenário. Eu visitava com tamanha constância e comprometimento a mata que, numa das noites, confabulei imagens onde eu me sentava numa mesa toda feita de troncos de árvores com cogumelos cravados fora a fora. A neblina cercava a paisagem e lembro de tocar Kate Bush ao fundo. A pandemia realmente exigia sonhos bons para fugir da realidade.


Falando sobre cogumelos, eu suspeitava que veria alguns deles, mas não necessariamente uma espécie que até então me era desconhecida. As frutificações que vi nos últimos anos eram esbranquiçadas ou amarronzadas, mas nunca no amarelo vibrante dessa vez. Fico feito criança quando encontro um punhado deles assim, reunidos embaixo de um tronco morto. É uma cena digna de desenho.




No dia seguinte o céu abriu e fez um pôr-do-sol mágico ao fim da tarde. Levei meus materiais de desenho e fiz algumas anotações visuais dos bichos e de uma árvore curiosa no meio do bosque. Um rebanho de gados me cercou em dado momento e até fiquei receoso (por mais que as criações dali sejam bem mansas). Quando um dos bois veio caminhando em minha direção, uma vaca deu nele uma investida “chega pra lá” de volta ao grupo. Achei misterioso e me senti mais seguro. Não foi dessa vez que tive de correr de um boi (azar o meu que vestia vermelho).



Entre as árvores me sinto num templo. Agradeci pelas últimas realizações, viajei em ideias fantásticas sobre as coisas grandes e pequenas que devem se esconder no paredão arbóreo. Esses seres são bem antigos e estão ali desde antes de mim. Quando meu avô construía nossa casa, minha mãe e tias desciam um vão entre a mata lá do outro bairro para entregar a ele uma marmita de almoço. Tenho fotos antigas da minha família ali também. Foi onde soltei minha primeira pipa (e fui cortado). Foi onde passei mais de dois anos buscando refúgio num período tão incerto no mundo. Esse espaço atravessa minha história e sempre me põe a pensar nos tempos - por isso volto, para lembrar de quem eu sou e pensar no que estou construindo de mim.

30/06/2026

Atear ânima no mato, tecitura de crença

Tenho medo de que todos os tempos virem um só, por isso os rituais

Faz-se os deuses e deixa de explicar a magia. Volte ao estado físico do corpo, leia os sentidos somente depois de cunhar a pedra com as próprias unhas. Estou no versículo da vida onde decoro a oração originada pelo trançar da resolução dos maus-agouros. No deserto se aprende a ser algo mais próximo de gente e distante do divino - o deserto é a paisagem que se vai quando os pelos despontam e engrossam na pele. Mas estou de volta ao descampado verde, ouço os sons das ovelhas e tomo um cajado infiltrado de bichos da chuva. Ouço também a vizinhança feminina cantando ao longe, perco o medo das serpentes do chão, avisto um pôr-do-sol de inverno. Eu mesmo levantei um sistema de signos e o batizei como religião, eu mesmo atravessei os arames e tornei sacro a campina onde dei os primeiros passos (a tomo como templo). Alheio à luxúria da palavra, curado das doenças da cidade e emergido dos covis em que me aprisionei, me ponho em frente ao mistério e agradeço, anunciando que o filho das árvores está de volta.

17/06/2026

A depender da diagramação do céu

Ardem as pontas dos dedos, mas se você reparar é para realinhar os astros

Quem é que diz uma frase como “as estrelas não se alinharam para nós”? O que você sabe do céu e o quanto olha para ele? Lembro de saber que fazia lua cheia quando minha avó estava nervosa e culpava o tamanho branco do satélite. Quando meu tato não alcança as respostas, vario à noite buscando desenhos no vão das estrelas. Cresci no meio de jovens transcendentais alheios às exatas, a gente brincava de pôr bichos no ar para se confrontar: touro, peixes, leão. Hoje não é o zodíaco e os motivos não flutuam por fora - me dá uma gastura pensar que a culpa é da carne e não de como o céu se organizou na hora do parto. Eu temo que seja bem mais fácil apalpar os astros (mesmo com risco de queimar as mãos) do que entrar em si para mudar o que não tem forma. Vou dormir cadente de companhia, com um rastro de um amarelo cego, espero que você encontre e saiba se guiar pelo céu.

15/06/2026

No verso das rochas, direções

 O homem no antropoceno busca por sinais e respostas na virada das rochas


Acho que já são tempos de revelar o que há por debaixo da umidade das pedras. A humanidade é um todo de uma criança que salva o doce para sua urgência: ocupar a boca do choro com um âmbar açucarado de perspectiva. À isso nos serve a arqueologia do chão. Preciso saber como os bichos pequenos criam morada nas fissuras escuras - conectar meus aparelhos em seus túneis e não buscar pela palavra didática, mas observar padrões, induzir meu próprio corpo à reprodução das micro-repetições, mimetizar o pulso da homeostase dos isópodes que alimentam a descendência com persistência e adaptabilidade. Vou vasculhando no chão os portais escuros nos quais se acumula susto e peçonha - no melhor dos cenários trago à luz um antídoto.

09/05/2026

Encontro com o gigante (pintura à guache)

Mesa e vista para prédios de São Paulo

Manchas como esboço (descobrindo a paisagem)

Arte final

Rosto próximo do gigante

06/05/2026

Vinte e oito no sol de touro

Na terça-feira 28 de abril completei vinte e oito anos. Esse é, desde sempre, meu número da sorte, isso que por pura simpatia com números pares e a junção dos dois formarem dez. Não tenho medo de envelhecer ou aversão à passagem do tempo: tenho criado memórias quentes ao passo que avanço e vou mostrando ao eu de antes novas realizações. Vejo esse processo de crescer como uma dança nas eras - e elas aglutinadas forma uma fita em espiral que dá para subir e descer. Sou uma pessoa bastante apegada às próprias lembranças e também animado por tudo o que ainda pode me acontecer. 


Me identifico com meu signo e a figura do touro, esse ser de bravura que recua e força investidas. Na manhã do meu aniversário saí para correr, recebi esse esboço mental e dediquei o dia ilustrando uma pintura para mim mesmo. Registrei um pouco do processo e gostei bastante do resultado. A arte já está enquadrada. Um ótimo ciclo novo para mim!

Rascunho

Trinta porcento da pintura

Arte final

02/04/2026

Equinócio de outono 2026 e chegada de Abril

Arte oficial do Equinócio de outono 2026

Abril chegou e esse é meu mês favorito. Antes disso, no meio de março, o outono também começou e passei a ensaiar uma arte comemorativa do equinócio. Todo ano tento dedicar um tempo de ofício para ilustrar o clima e os símbolos dessa transição sazonal que vem sendo cada vez mais importante para mim. Gosto de rituais, de perceber mudanças e aproximar os tempos. Infelizmente esse ano me enrolei com trabalho e outros compromissos e não pude refletir tanto sobre as peças de uma imagem, confeccioná-las com o cuidado que gosto e costurá-las numa figura maior. Mas isso tem também sua poética própria.

2026 tem sido até agora um ano bastante atribulado - mal tenho a oportunidade de desenhar cenas autorais. Me sinto às vezes como um toco de árvore, vestígios de uma fonte de matéria prima. Em meu bairro existem algumas raízes parcialmente podadas, acho muito bonito o ressurgimento de vida anunciado em galhos finos e folhas recém-nascidas. A textura que se desvela na superfície dessa anatomia podada é, também, muito bonita e interessante. As ondas desenhadas em círculos, as veias que se estendem fora a fora denunciando armas de corte e a umidade do amarelo ao marrom lembrando do orgânico.

Rascunho arte de Equinócio de outono 2026

Tenho gostado particularmente de cores que, até então, considerei feias ou pouco úteis no desenho. Amarelos escuros, azuis da medicina, marrons e cinzas cromáticos. Quando me refiro a elas como “feias” não faço distinção de valor. Acho que o feio tem em si uma importância expressiva e de aplicação enormes. É interessante visitar esses lugares cromáticos. Experimentá-los em minha linguagem.

Para mim, este período é frio, amadeirado, fresco, mas com mais folhas no chão do que penduradas em árvores. Reflete como me sinto e tenho encarado os dias. Abril é o mês do meu aniversário, eventos gostosos acontecem na periferia da data em que nasci: os tantos feriados, dias santos, datas para pensarmos o planeta terra. A temperatura passa a baixar e o azul do céu é lindo. Espero que seja um ciclo aconchegante e anunciador de boas novas para todos nós.

Primeira experimentação de ideia do Equinócio de outono 2026


30/03/2026

O desenho é uma estrutura para descer lajotas


Dediquei esse final de semana para atividades pessoais. Tenho poucas oportunidades de ficar sozinho, na cidade que hoje moro, executando as tarefas domésticas, conversando até anoitecer com meus vizinhos, treinando, saindo para almoçar em minha companhia e prolongar meu desenho ao longo de um domingo inteiro. A programação por aqui nesses últimos dias foi assim. Acabo não tendo tempo para olhar o celular - o que contribui para estar presente, atento e contemplativo ao que está à minha volta. As horas se dilatam e o ócio me convida a respirar numa cadência mais prazerosa.


No sábado de manhã fui treinar na academia do bairro. Treinei superiores. As velhinhas que vão cedo são muito fofas. Gosto desse horário por lá pois não tem muitas pessoas e os equipamentos ficam livres. A atendente de sábado é uma moça muito simpática. Nas pausas das séries olho por cima do muro e percebo como meu bairro é bonito e arborizado - a manhã ensolarada e de céu azul ajuda.


Tinha várias coisas para resolver. Como passo muito tempo entre cidades diferentes, divulgando meus projetos, em reuniões com editores, agentes e colegas de profissão, mal posso dar a devida atenção à casa. Chegando do treino limpei minha geladeira e armário, fiz a lista de compras, deixei a roupa lavando/secando e tomei um daqueles banhos pós faxina com direito a muita espuma na cabeça, me arrumei e fui resolver outros bo’s fora de casa.


Meu notebook começou a dar problemas recentemente - desligar e não ligar mais. Atualmente estou trabalhando num filme de animação muito promissor, com uma equipe muito legal e o equipamento acaba atrasando minha eficiência. Fui numa assistência que os vizinhos recomendaram e (aparentemente) o problema foi resolvido. Ali perto tem uma praça, a praça do coco, em que aos finais de semana recebe uma feirinha. Lembrei com um sorriso de orelha à orelha que aos sábados a barraca do feijão tropeiro abre! Peguei uma marmita, um caldo de cana com limão e me sentei embaixo dos coqueiros para almoçar.



Logo depois passeei pela feira atrás de um presente para minha amiga Carol Branco - parceira de longa data dos tempos de faculdade. Quando vou comprar um presente para alguma pessoa querida uso um termômetro pessoal e emocional de sentir o quanto de energia subjetiva um objeto carrega. Este termômetro apitou numa banca de acessórios artesanais e mais uma vez busquei o brinco ideal para a Carol. Comprei e presenteei. Espero que ela goste.



Fiz compras de mercado, organizei os itens na geladeira e armário, lavei roupa de cama e subi para descansar. Fiquei assistindo aquela série nova da Netflix baseada no acidente radioativo de Goiânia - muito boa. Cochilei e acordei com os vizinhos se reunindo na rua. Me juntei a eles, levei um vinho branco. Ficamos papeando, comendo pães que Hugo (um dos vizinhos) assou (ele vende suas panificações também na feira da praça do coco), bebendo e assistindo as crianças brincarem.



É engraçado o caos que se forma. Bichos: gatos, cachorros, saguis, saruês, maritacas, porco espinho, enfim, uma fauna completa. Pessoas: adultos reclamando, crianças aos berros, idosos caminhando. Bicicletas, carros, entregadores em cima de motos. É uma paisagem de desordem, mas muito descontraída e rara, que tenho o privilégio de participar. Tenho um imenso carinho por minha comunidade, por esse novo pedaço de família. Eles são únicos e especiais. Até ganhei um desenho do Dario - que já colei na geladeira.



No sábado à noite passei no aniversário da Carol, revi amigos antigos e a presenteei. Como cheguei tarde, logo voltei pois estava cansado. Dormi e, no dia seguinte, acordei cedo para desenhar. Estou há alguns meses trabalhando no filme de animação, em outros 4 livros (!!!) e num projeto de pesquisa - me sinto aqueles profissionais de circo equilibrando pratos. Mal sobra tempo para desenhar pra mim mesmo. Meu desenho é, para além de um trabalho e hobbie, um mecanismo de receber notícias sobre mim mesmo. Uma bússola, um oráculo. Portanto, dediquei o domingo unicamente a isso: desenhar. A partir daqui compartilho o que criei e o processo da última arte (meu celular ficou carregando enquanto fazia os outros e não consegui registrar o passo a passo deles).




Processo:





A única pausa que fiz foi para almoçar. Vesti minha nova camiseta predileta (presente da Bece, minha melhor amiga, que me trouxe dos EUA um merch oficial da Adrianne Lenker <3) e fui até a Unicamp comer no restaurante universitário. O cardápio era arroz, feijão, polenta mole, salada de beterraba e carne bovina ao sugo. Estava muito gostoso. De suco tinha refresco de tangerina e de sobremesa melancia (a sobremesa que mais gosto de comer nesses dias quentes). 




Por ser domingo as ruas e a universidade estavam vazias - o que eu gosto, me dá uma sensação cinematográfica. Vi muitas flores, insetos e senti o cheiro do lago no trajeto. Voltei ainda mais inspirado para casa. 



No entardecer fiz uma corrida de 3km e, na volta, me reuni de novo com os vizinhos. A saga da noite foi tirar um dos gatos de cima da árvore. Não precisamos de bombeiro. Folheei o sketchbook de uma das vizinhas, a Kathrin. Ela é quem encaderna meus sketchbooks (eu disse, sou muito privilegiado em assunto de vizinhança) e é uma aquarelista fantástica! Olha essa dupla de paisagens que ela fez e que capturei.


Neste final de semana revisitei os álbuns do Sufjan Stevens. É um artista que sempre escuto - mas especialmente no outono se torna minha trilha sonora predileta. Também dei mais atenção aos álbuns do Bon Iver. Para treinar escutei a discografia da Marina Sena. Torci pela Ana Paula no BBB e nos intervalos desses dias gostosos descansei a cabeça. Até!