10/07/2026

The Old Man, the Boy, and the Dog

Meu primeiro trabalho como autor internacional!


Esse mês recebi a versão impressa do meu primeiro livro internacional! Fiquei muitíssimo feliz quando entrei no quarto, vi o pacote e suspeitei que se tratasse de uma cópia de “The old man, the boy, and the dog” - a editora foi super rápida na entrega e que coisa boa que é ter em mãos um livro que viajou de tão longe e que tomou um tempo especial da sua vida na confecção.


“The old man, the boy and the dog” é um livro publicado pela Inhabit, a primeira editora independente de propriedade Inuit no Ártico canadense. Essa é uma editora especializada em contos e histórias tradicionais, que promovem o fortalecimento cultural dos povos originários. Imagine a minha honra em receber um convite dessa casa literária - temas como preservação da cultura oral e de folclores que sustentam a cosmologia local são muito preciosos para mim.


O texto do livro é do autor Kevin Kaukuarjuk Qamaniq-Mason, que reconta uma clássica fábula de Esopo em torno dos ensinamentos de um senhor para seu neto (porém, neste caso, ambientado no norte do Canadá). A narrativa apresenta signos, costumes, indumentárias e construções originárias. Achei brilhante a ideia de, através de um conto popular difundido em muitas sociedades, incorporar o arcabouço cultural da etnia Inuit.


O trabalho surgiu através dos meus agentes internacionais da Advocate Art. Por meio deles recebo convites e propostas para projetos de ilustração e este foi nosso primeiro livro elaborado juntos. O processo foi super especial e, trabalhando junto da Vickie e Astrid, pude criar estudos de personagens, vestimentas, objetos de caças, design dos cachorros e seus trenós de forma fidedigna e respeitosa. Essa parte do trabalho onde me referencio em documentos históricos é minha predileta. É como se eu me deslocasse para um outro contexto e, através do desenho, compreendesse partes do mundo que até então eu não tinha conhecimento. Na etapa de estudos automaticamente me torno um nerd criando pranchetas de imagens simbólicas que funcionam como uma constelação simbólica do que visualizo para a obra.




O livro está lindo e já se encontra à venda com entrega internacional por meio deste link. Gostaria de agradecer meus agentes da Advocate e os parceiros da Inhabit por disporem de tempo, carinho e consultorias minuciosas para juntos darmos vida à essa história. Uau, é muito massa pensar que crianças do norte do Canadá estejam em suas camas, perto de dormir, apontando para pequenos desenhos de cachorros que eu fiz e escolhendo seus favoritos! Espero que muitos leitores, desses lugares tão longe de onde estou, se conectem com a narrativa como pude fazer nos últimos meses.

02/07/2026

O bom filho a mata torna

Acredito que o corpo guarda a memória dos nossos lugares favoritos e está sempre tentando voltar.


Alguns dias atrás visitei a área em que cresci, no bairro dos meus avós. Foi ali também onde passei a pandemia. Todos os dias do isolamento eu adentrava na mata acompanhado por um livro e materiais de arte e ficava lendo, desenhando e observando o entorno. Hoje em dia não tenho mais a mesma frequência de visita, pois moro em outra cidade. Entretanto ainda sinto um grande mistério e pertencimento nesse bosque, afinal de contas, é meu lugar de origem. É para lá que vou sempre que desejo retomar um contato mais profundo com as árvores e os bichos, contemplar os vazios e os silêncios até me deparar com alguma surpresa, buscar inspiração e também notícias de mim.




Me sinto muito sortudo por ter crescido aqui. Mesmo que afastado dos centros, tive acesso a uma cultura muito especial. Os vizinhos são os mesmos, o senhor que mantém criação de bichos também (sua companheira já faleceu, era uma senhora muito simpática que inclusive cuidava de mim quando eu era bem pequeno). Valorizo esse ambiente que além de saudável e tranquilo, é também muito bonito. Para mim, o paraíso na terra são os pores-do-sol de inverno que colorem a grama com um dourado indescritível.




Nessa última passagem em específico fui presenteado com dois climas distintos: céu nublado e dia ensolarado. No primeiro caso, uma neblina se assentou na mata e criou uma atmosfera mística e profunda, como se as nuvens estivessem engolindo a cidade e só aquela área existisse de verdade. Fez frio também, então pude andar por todo o gramado sentindo o vento no rosto. Havia chovido durante a semana e os galhos estavam úmidos, o capim gotejava orvalho e alguns insetos saiam de suas tocas.




Me lembro de uma vez sonhar, durante a pandemia, com esse mesmo cenário. Eu visitava com tamanha constância e comprometimento a mata que, numa das noites, confabulei imagens onde eu me sentava numa mesa toda feita de troncos de árvores com cogumelos cravados fora a fora. A neblina cercava a paisagem e lembro de tocar Kate Bush ao fundo. A pandemia realmente exigia sonhos bons para fugir da realidade.


Falando sobre cogumelos, eu suspeitava que veria alguns deles, mas não necessariamente uma espécie que até então me era desconhecida. As frutificações que vi nos últimos anos eram esbranquiçadas ou amarronzadas, mas nunca no amarelo vibrante dessa vez. Fico feito criança quando encontro um punhado deles assim, reunidos embaixo de um tronco morto. É uma cena digna de desenho.




No dia seguinte o céu abriu e fez um pôr-do-sol mágico ao fim da tarde. Levei meus materiais de desenho e fiz algumas anotações visuais dos bichos e de uma árvore curiosa no meio do bosque. Um rebanho de gados me cercou em dado momento e até fiquei receoso (por mais que as criações dali sejam bem mansas). Quando um dos bois veio caminhando em minha direção, uma vaca deu nele uma investida “chega pra lá” de volta ao grupo. Achei misterioso e me senti mais seguro. Não foi dessa vez que tive de correr de um boi (azar o meu que vestia vermelho).



Entre as árvores me sinto num templo. Agradeci pelas últimas realizações, viajei em ideias fantásticas sobre as coisas grandes e pequenas que devem se esconder no paredão arbóreo. Esses seres são bem antigos e estão ali desde antes de mim. Quando meu avô construía nossa casa, minha mãe e tias desciam um vão entre a mata lá do outro bairro para entregar a ele uma marmita de almoço. Tenho fotos antigas da minha família ali também. Foi onde soltei minha primeira pipa (e fui cortado). Foi onde passei mais de dois anos buscando refúgio num período tão incerto no mundo. Esse espaço atravessa minha história e sempre me põe a pensar nos tempos - por isso volto, para lembrar de quem eu sou e pensar no que estou construindo de mim.

30/06/2026

Atear ânima no mato, tecitura de crença

Tenho medo de que todos os tempos virem um só, por isso os rituais

Faz-se os deuses e deixa de explicar a magia. Volte ao estado físico do corpo, leia os sentidos somente depois de cunhar a pedra com as próprias unhas. Estou no versículo da vida onde decoro a oração originada pelo trançar da resolução dos maus-agouros. No deserto se aprende a ser algo mais próximo de gente e distante do divino - o deserto é a paisagem que se vai quando os pelos despontam e engrossam na pele. Mas estou de volta ao descampado verde, ouço os sons das ovelhas e tomo um cajado infiltrado de bichos da chuva. Ouço também a vizinhança feminina cantando ao longe, perco o medo das serpentes do chão, avisto um pôr-do-sol de inverno. Eu mesmo levantei um sistema de signos e o batizei como religião, eu mesmo atravessei os arames e tornei sacro a campina onde dei os primeiros passos (a tomo como templo). Alheio à luxúria da palavra, curado das doenças da cidade e emergido dos covis em que me aprisionei, me ponho em frente ao mistério e agradeço, anunciando que o filho das árvores está de volta.

17/06/2026

A depender da diagramação do céu

Ardem as pontas dos dedos, mas se você reparar é para realinhar os astros

Quem é que diz uma frase como “as estrelas não se alinharam para nós”? O que você sabe do céu e o quanto olha para ele? Lembro de saber que fazia lua cheia quando minha avó estava nervosa e culpava o tamanho branco do satélite. Quando meu tato não alcança as respostas, vario à noite buscando desenhos no vão das estrelas. Cresci no meio de jovens transcendentais alheios às exatas, a gente brincava de pôr bichos no ar para se confrontar: touro, peixes, leão. Hoje não é o zodíaco e os motivos não flutuam por fora - me dá uma gastura pensar que a culpa é da carne e não de como o céu se organizou na hora do parto. Eu temo que seja bem mais fácil apalpar os astros (mesmo com risco de queimar as mãos) do que entrar em si para mudar o que não tem forma. Vou dormir cadente de companhia, com um rastro de um amarelo cego, espero que você encontre e saiba se guiar pelo céu.

15/06/2026

No verso das rochas, direções

 O homem no antropoceno busca por sinais e respostas na virada das rochas


Acho que já são tempos de revelar o que há por debaixo da umidade das pedras. A humanidade é um todo de uma criança que salva o doce para sua urgência: ocupar a boca do choro com um âmbar açucarado de perspectiva. À isso nos serve a arqueologia do chão. Preciso saber como os bichos pequenos criam morada nas fissuras escuras - conectar meus aparelhos em seus túneis e não buscar pela palavra didática, mas observar padrões, induzir meu próprio corpo à reprodução das micro-repetições, mimetizar o pulso da homeostase dos isópodes que alimentam a descendência com persistência e adaptabilidade. Vou vasculhando no chão os portais escuros nos quais se acumula susto e peçonha - no melhor dos cenários trago à luz um antídoto.

09/05/2026

Encontro com o gigante (pintura à guache)

Mesa e vista para prédios de São Paulo

Manchas como esboço (descobrindo a paisagem)

Arte final

Rosto próximo do gigante

06/05/2026

Vinte e oito no sol de touro

Na terça-feira 28 de abril completei vinte e oito anos. Esse é, desde sempre, meu número da sorte, isso que por pura simpatia com números pares e a junção dos dois formarem dez. Não tenho medo de envelhecer ou aversão à passagem do tempo: tenho criado memórias quentes ao passo que avanço e vou mostrando ao eu de antes novas realizações. Vejo esse processo de crescer como uma dança nas eras - e elas aglutinadas forma uma fita em espiral que dá para subir e descer. Sou uma pessoa bastante apegada às próprias lembranças e também animado por tudo o que ainda pode me acontecer. 


Me identifico com meu signo e a figura do touro, esse ser de bravura que recua e força investidas. Na manhã do meu aniversário saí para correr, recebi esse esboço mental e dediquei o dia ilustrando uma pintura para mim mesmo. Registrei um pouco do processo e gostei bastante do resultado. A arte já está enquadrada. Um ótimo ciclo novo para mim!

Rascunho

Trinta porcento da pintura

Arte final

02/04/2026

Equinócio de outono 2026 e chegada de Abril

Arte oficial do Equinócio de outono 2026

Abril chegou e esse é meu mês favorito. Antes disso, no meio de março, o outono também começou e passei a ensaiar uma arte comemorativa do equinócio. Todo ano tento dedicar um tempo de ofício para ilustrar o clima e os símbolos dessa transição sazonal que vem sendo cada vez mais importante para mim. Gosto de rituais, de perceber mudanças e aproximar os tempos. Infelizmente esse ano me enrolei com trabalho e outros compromissos e não pude refletir tanto sobre as peças de uma imagem, confeccioná-las com o cuidado que gosto e costurá-las numa figura maior. Mas isso tem também sua poética própria.

2026 tem sido até agora um ano bastante atribulado - mal tenho a oportunidade de desenhar cenas autorais. Me sinto às vezes como um toco de árvore, vestígios de uma fonte de matéria prima. Em meu bairro existem algumas raízes parcialmente podadas, acho muito bonito o ressurgimento de vida anunciado em galhos finos e folhas recém-nascidas. A textura que se desvela na superfície dessa anatomia podada é, também, muito bonita e interessante. As ondas desenhadas em círculos, as veias que se estendem fora a fora denunciando armas de corte e a umidade do amarelo ao marrom lembrando do orgânico.

Rascunho arte de Equinócio de outono 2026

Tenho gostado particularmente de cores que, até então, considerei feias ou pouco úteis no desenho. Amarelos escuros, azuis da medicina, marrons e cinzas cromáticos. Quando me refiro a elas como “feias” não faço distinção de valor. Acho que o feio tem em si uma importância expressiva e de aplicação enormes. É interessante visitar esses lugares cromáticos. Experimentá-los em minha linguagem.

Para mim, este período é frio, amadeirado, fresco, mas com mais folhas no chão do que penduradas em árvores. Reflete como me sinto e tenho encarado os dias. Abril é o mês do meu aniversário, eventos gostosos acontecem na periferia da data em que nasci: os tantos feriados, dias santos, datas para pensarmos o planeta terra. A temperatura passa a baixar e o azul do céu é lindo. Espero que seja um ciclo aconchegante e anunciador de boas novas para todos nós.

Primeira experimentação de ideia do Equinócio de outono 2026