30/03/2026

O desenho é uma estrutura para descer lajotas


Dediquei esse final de semana para atividades pessoais. Tenho poucas oportunidades de ficar sozinho, na cidade que hoje moro, executando as tarefas domésticas, conversando até anoitecer com meus vizinhos, treinando, saindo para almoçar em minha companhia e prolongar meu desenho ao longo de um domingo inteiro. A programação por aqui nesses últimos dias foi assim. Acabo não tendo tempo para olhar o celular - o que contribui para estar presente, atento e contemplativo ao que está à minha volta. As horas se dilatam e o ócio me convida a respirar numa cadência mais prazerosa.


No sábado de manhã fui treinar na academia do bairro. Treinei superiores. As velhinhas que vão cedo são muito fofas. Gosto desse horário por lá pois não tem muitas pessoas e os equipamentos ficam livres. A atendente de sábado é uma moça muito simpática. Nas pausas das séries olho por cima do muro e percebo como meu bairro é bonito e arborizado - a manhã ensolarada e de céu azul ajuda.


Tinha várias coisas para resolver. Como passo muito tempo entre cidades diferentes, divulgando meus projetos, em reuniões com editores, agentes e colegas de profissão, mal posso dar a devida atenção à casa. Chegando do treino limpei minha geladeira e armário, fiz a lista de compras, deixei a roupa lavando/secando e tomei um daqueles banhos pós faxina com direito a muita espuma na cabeça, me arrumei e fui resolver outros bo’s fora de casa.


Meu notebook começou a dar problemas recentemente - desligar e não ligar mais. Atualmente estou trabalhando num filme de animação muito promissor, com uma equipe muito legal e o equipamento acaba atrasando minha eficiência. Fui numa assistência que os vizinhos recomendaram e (aparentemente) o problema foi resolvido. Ali perto tem uma praça, a praça do coco, em que aos finais de semana recebe uma feirinha. Lembrei com um sorriso de orelha à orelha que aos sábados a barraca do feijão tropeiro abre! Peguei uma marmita, um caldo de cana com limão e me sentei embaixo dos coqueiros para almoçar.



Logo depois passeei pela feira atrás de um presente para minha amiga Carol Branco - parceira de longa data dos tempos de faculdade. Quando vou comprar um presente para alguma pessoa querida uso um termômetro pessoal e emocional de sentir o quanto de energia subjetiva um objeto carrega. Este termômetro apitou numa banca de acessórios artesanais e mais uma vez busquei o brinco ideal para a Carol. Comprei e presenteei. Espero que ela goste.



Fiz compras de mercado, organizei os itens na geladeira e armário, lavei roupa de cama e subi para descansar. Fiquei assistindo aquela série nova da Netflix baseada no acidente radioativo de Goiânia - muito boa. Cochilei e acordei com os vizinhos se reunindo na rua. Me juntei a eles, levei um vinho branco. Ficamos papeando, comendo pães que Hugo (um dos vizinhos) assou (ele vende suas panificações também na feira da praça do coco), bebendo e assistindo as crianças brincarem.



É engraçado o caos que se forma. Bichos: gatos, cachorros, saguis, saruês, maritacas, porco espinho, enfim, uma fauna completa. Pessoas: adultos reclamando, crianças aos berros, idosos caminhando. Bicicletas, carros, entregadores em cima de motos. É uma paisagem de desordem, mas muito descontraída e rara, que tenho o privilégio de participar. Tenho um imenso carinho por minha comunidade, por esse novo pedaço de família. Eles são únicos e especiais. Até ganhei um desenho do Dario - que já colei na geladeira.



No sábado à noite passei no aniversário da Carol, revi amigos antigos e a presenteei. Como cheguei tarde, logo voltei pois estava cansado. Dormi e, no dia seguinte, acordei cedo para desenhar. Estou há alguns meses trabalhando no filme de animação, em outros 4 livros (!!!) e num projeto de pesquisa - me sinto aqueles profissionais de circo equilibrando pratos. Mal sobra tempo para desenhar pra mim mesmo. Meu desenho é, para além de um trabalho e hobbie, um mecanismo de receber notícias sobre mim mesmo. Uma bússola, um oráculo. Portanto, dediquei o domingo unicamente a isso: desenhar. A partir daqui compartilho o que criei e o processo da última arte (meu celular ficou carregando enquanto fazia os outros e não consegui registrar o passo a passo deles).




Processo:





A única pausa que fiz foi para almoçar. Vesti minha nova camiseta predileta (presente da Bece, minha melhor amiga, que me trouxe dos EUA um merch oficial da Adrianne Lenker <3) e fui até a Unicamp comer no restaurante universitário. O cardápio era arroz, feijão, polenta mole, salada de beterraba e carne bovina ao sugo. Estava muito gostoso. De suco tinha refresco de tangerina e de sobremesa melancia (a sobremesa que mais gosto de comer nesses dias quentes). 




Por ser domingo as ruas e a universidade estavam vazias - o que eu gosto, me dá uma sensação cinematográfica. Vi muitas flores, insetos e senti o cheiro do lago no trajeto. Voltei ainda mais inspirado para casa. 



No entardecer fiz uma corrida de 3km e, na volta, me reuni de novo com os vizinhos. A saga da noite foi tirar um dos gatos de cima da árvore. Não precisamos de bombeiro. Folheei o sketchbook de uma das vizinhas, a Kathrin. Ela é quem encaderna meus sketchbooks (eu disse, sou muito privilegiado em assunto de vizinhança) e é uma aquarelista fantástica! Olha essa dupla de paisagens que ela fez e que capturei.


Neste final de semana revisitei os álbuns do Sufjan Stevens. É um artista que sempre escuto - mas especialmente no outono se torna minha trilha sonora predileta. Também dei mais atenção aos álbuns do Bon Iver. Para treinar escutei a discografia da Marina Sena. Torci pela Ana Paula no BBB e nos intervalos desses dias gostosos descansei a cabeça. Até!



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