Todo ano tenho o costume de desenhar um postal de boas festas e enviá-los a uma lista de transmissão do whatsapp. Faço isso desde 2019, quando adquiri pela primeira vez um ipad, e seleciono aqueles que estiveram mais presentes ao longo do ano em minha vida para receber a arte anual exclusiva. A cada ciclo se torna mais interessante observar as ilustrações que crio para manter a tradição. As escolhas estéticas que faço nas artes refletem meus gostos, humor e evolução técnica. Por isso decidi juntar os postais desde 2020 (infelizmente perdi o de 2019, mas o primeiro não era nada demais).
Em 2020 elaborei uma arte baseada nas cores que mais me geraram interesse na época. Lembro de estar obcecado por artistas cottagecore no instagram e perceber que texturas e ruídos acendiam ainda mais esse aspecto rural e aconchegante. Incluí uma versão meiga de mim na imagem, acho que desde então não voltei a me desenhar dessa forma, com essas bochechas e esse olhar. Um fato curioso é que só voltei a incluir a uma personificação de mim nos postais anos mais tarde - em 2024.
Ao fim de 2021 eu havia criado uma monografia densa acerca de símbolos populares. Após o encerramento do meu ciclo universitário em Artes Visuais minha mente seguiu povoada por signos mágicos presentes em tapeçarias e obras originárias. As formas geométricas, figuras de perfil e criatura mística compõem um imaginário que trago até hoje. Me lembro de desenhar este postal na própria véspera, deitado numa cama simples em uma edícula com piscina que minha família havia alugado, mas onde somente eu passei a noite. Depois que disparei a imagem, lembro de sair pelo condomínio caminhando e ouvindo o álbum homônimo do Bon Iver.
Em 2022 dei seguimento à linha mística. Quis enaltecer o caráter de postal da imagem e acrescentei um selo em detalhe. Ambas as criaturas que protagonizam a composição são um retrato do natal e do ano novo. Pensei naquela canção que versa sobre se despedir do ano velho e receber um recém nascido. Me lembro de programas de televisão colocando um senhor de idade acompanhado por um neném para representar essa troca de ciclos. As texturas que incluí nos corpos dos personagens são as mesmas formas que estampam as áreas de fundo do Jeguinho Tenório - livro que já estava em desenvolvimento na época.
Ah, esse de 2023 deve ser meu favorito! Como falei na introdução, o estilo das imagens reflete perfeitamente como me sentia na época, meus interesses e pesquisas gráficas. Neste ponto eu estava obcecado por risografia. Estava super contente com pincéis digitais que tinha recém adquirido para o Procreate e fazendo várias experimentações. Confesso que arrasei demais nesse postal. Gosto muito das cores, de como distribuí as áreas de ilustrações, das figuras que decidi incluir - a árvore, por exemplo, é uma tentativa de deslocar a noção de pinheiro para algo mais brasileiro, então pensei numa bananeira como adorno natalino. As texturas estão maravilhosas, quando olho a imagem me parece de fato com um postal que foi impresso de forma barata e circulou a ponto de perder qualidade.
O de 2024 não tem uma história tão boa, infelizmente. Desenhei ele enquanto acompanhava meu avô num quarto de hospital. Ele estava acamado, saindo de um quadro meio delicado e levei meu ipad para matar o tempo nas horas em que ele dormia ou queria ficar em silêncio (o que era quase sempre). Em 2024 desenvolvi essa linguagem em meu trabalho com linhas e cores chapadas simples. Acredito que depois de tantos anos desenhando sem contorno, minha técnica foi se sofisticando e gravando melhor o gestual anatômico - então, quando utilizei o recurso do traçado em torno da figura, tenho a impressão de que desaguei tudo o que aprendi sobre pose e movimento. Gosto bastante dos ornamentos desse desenho, da árvore seca e da ideia não de uma estrela estática, mas de um calor que flui e se espalha do topo do tronco.
Eu nunca divulgo a arte anual antes de enviá-la às pessoas. Na realidade, nunca publico nenhum dos postais (então essa é uma novidade por aqui). Como este é um espaço silencioso, decidi fazer esse fio e, para fechá-lo, incluir a arte de 2025! A edição mais recente foi criada no Photoshop - quebrando a tradição de ilustrar todos os postais no Procreate. Numa tarde de ócio comecei a esboçar ideias no computador e quando vi já estava pronta.
Acho que este é também um dos meus postais prediletos, junto com o de 2023. Sinto até que ele é uma evolução deste último citado. Na composição uni várias linguagens que vim estudando nos últimos anos. Minha figura com a pomba foi pintada num estilo que desenvolvi em 2025, num processo que simula analógico e usa cores vibrantes como base. Incorporei tramas de ponto cruz, sobreposições, figuras populares… enfim, acho que essa é uma síntese perfeita do meu trabalho, estou muito contente com a sofisticação e qualidade do cartão postal de boas festas que encerra esse ciclo.






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