13/12/2025

Seguindo o coração da linha




No início deste ano organizei uma oficina de gravura com meus amigos no Xilomóvel (ateliê que participo já há um ano). A experiência de nos reunirmos num espaço para expandir nossos conhecimentos sobre arte analógica deu tão certo que repetimos a dose, mas dessa vez pensei em um outro tema: encadernação artesanal. Essa atividade surgiu principalmente porque meu grande parceiro de publicações independentes, o Costuradus (editora dirigida pelo Helder) - um dos mais altos nomes de dobra, costura e confecção de pequenos livretos manuais - tem feito oficinas em Sescs e outras feiras e por que não aproveitar a amizade para contratá-lo?


Me sinto muito sortudo pelas amizades que tenho. É sempre um espanto olhar em volta e perceber que tenho proximidade de pessoas que não são somente cheias de talento, mas também gentis e movidas pela simples vontade de fazer, criar, inventar… Especialmente em coletivo. Temos humor e interesses em comum e todos esses aspectos combinados rendem encontros que preenchem o tempo da mais valiosa alegria e realização. Sempre bato na tecla de que projetar em união torna o processo duplamente mais prazeroso. Com isso no coração, organizei a oficina de encadernação para fecharmos o ano.


Recrutei meus amigos mais queridos para compor uma turma. Bruno, Kahn e David são os artistas do estúdio Ilustrata, parceiros conterrâneos que topam qualquer aventura gráfica. Tati, Lil e Marina são respectivamente uma streamer, ilustradora e chefe de cozinha que completam o time. A ilustre Paula Cruz atendeu nosso convite e junto de Pedro, seu companheiro, viajaram lá do Rio de Janeiro até o interior de São Paulo só para viver isso com a gente - fiquei muito lisonjeado do esforço de deslocamento até aqui, são duas pessoas muito queridas que acompanho já há algum tempo nas redes e que tivemos algumas oportunidades de encontro. Thunder (ou Matt) foi o milagre de Natal que chegou de última hora e fechou a turma com chave de ouro. Fora os componentes, Luciana e Helder, fundadora do Xilomóvel e oficineiro, são não só profissionais que nos acompanharam, mas também grandes amizades para além do profissional.


Foi com esse time que trilhamos dois dias de oficina sobre encadernação japonesa. Munidos de papéis, linhas, agulhas, cola e retalhos, criamos nossos próprios cadernos entre quarta e quinta-feira. Helder nos instruiu ao refile, dobras, costuras e outras minúcias para se obter um volume desse gênero. Para mim particularmente o início foi bem difícil de compreender, tenho dificuldade de acompanhar instruções abstratas que se referem a atos formais (a matemática funciona desse jeito em minha cabeça). Mas com as repetições fui pegando o jeito e me encantei pelo caminho prático de unir papéis e obter algo maior.
 

Sou grande usuário de cadernos. Desde que me dou por gente, consumo esse material como suporte de desenho. Me recordo de ser criança e ir na mercearia do bairro comprar aqueles aramados pautados de 100 folhas com capa de surfista para preencher com rabiscos de Pokémon. Dada essa trajetória, estou num percurso de pensar um projeto de pesquisa voltado para este tema. Me instrumentalizar de modo que eu tenha autonomia para criar esses objetos é algo que enriquece ainda mais o corpo textual sobre o hábito de manter diários visuais que falem sobre mim e sobre o mundo. Claro que é algo alheio ao que já faço (ilustrar), mas acredito que com a repetição da prática que aprendemos e com a gentil consultoria do Helder, vou refinando a habilidade.


O recheio (para não dizer a camada principal) do tempo que passamos no ateliê foi pura zombaria. A imagem perfeita para representar o que vivemos juntos na sala é, sem dúvidas, uma sala de aula no fundamental 2. Não digo aqui “ensino médio” pois nesse estágio da vida vemos adolescentes emburrados e arrogantes. No fundamental 2 existe tanto um desprendimento de responsabilidades como uma tiração de sarro sobre qualquer detalhe que passe na frente dos olhos. Tudo era motivo para escrachar - quem aguenta não fazer piada sobre furo, buraco, agulha?


Escrevo tudo isso rindo sozinho. Acho que nada é mais importante nesse processo de se tornar adulto do que poder acessar essas ilhas de relaxamento coletivo, em que somos íntimos o suficiente para fazer algazarra e matar as saudades em tom alto. Ah, e não é porque somos bagunceiros que não tiramos 10 - os cadernos saíram sim, e lindos por sinal! Ao fim do segundo dia organizamos um amigo secreto e nos presenteamos uns aos outros com os sketchbooks que criamos.
 

Fora as produções, fizemos o que mais gostamos além de arte: comemos juntos. Fizemos boas pausas e merendas. Almoçamos no Bagdá, restaurante de comida árabe de Barão Geraldo. Tomamos sorvete (duas vezes!) no sorvete em camadas. Passamos pela praça do coco e enchemos a mesinha com sucos e quitutes do interior. Lotamos o salão do guaco no último dia de oficina. A cereja do bolo de me reunir com esse pessoal é sempre o ponto de reabastecimento de energias.


Para concluir os dias de trabalho (que mais soaram como dias de pura diversão) regressamos à Limeira e na casa do Bruno viramos a noite e a madrugada. Sem pai ou mãe para controlar essas crianças e dosar a farra, estendemos os minutos e nos engajamos na euforia de estarmos presentes num mesmo espaço. Beliscamos porcarias e nos deleitamos num jantar orquestrado pelos anfitriões Bruno e Tati. Assistimos à uma apresentação das fotos analógicas da viagem da família Ilustrata pelo Japão. Fofocamos, conversamos sobre tudo o que faltou conversar, nos distribuímos pelos cômodos e alargamos as paredes com nossas risadas. Quando nos demos conta eram quatro da manhã e fazia mais sentido dar continuidade aos papos no dia seguinte.


Na sexta-feira almoçamos, visitamos o novo estúdio dos meninos e fechamos a viagem com jogos. Momentos como esse me remetem às tardes dos anos noventa e dois mil. Do descompromisso e da espontaneidade que traz para a mesa anúncios de como a vida pode (e deve) ser boa. As oficinas e o ofício artístico são partes importantes dessas reuniões, mas para ser sincero, parecem um canal, uma mera desculpa para vivenciar essa dinâmica em grupo. Fico feliz que ambas as forças nutram uma à outra: a busca por se aprofundar nas linguagens da arte e a simples ideia de fazer algazarra. As páginas dos cadernos ainda estão zeradas, mas folheando minha memória vejo imagens das quais já sinto saudades (e que me apontam para, muito em breve, usar como desculpa para um novo encontro).

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