Acredito que o corpo guarda a memória dos nossos lugares favoritos e está sempre tentando voltar.
Alguns dias atrás visitei a área em que cresci, no bairro dos meus avós. Foi ali também onde passei a pandemia. Todos os dias do isolamento eu adentrava na mata acompanhado por um livro e materiais de arte e ficava lendo, desenhando e observando o entorno. Hoje em dia não tenho mais a mesma frequência de visita, pois moro em outra cidade. Entretanto ainda sinto um grande mistério e pertencimento nesse bosque, afinal de contas, é meu lugar de origem. É para lá que vou sempre que desejo retomar um contato mais profundo com as árvores e os bichos, contemplar os vazios e os silêncios até me deparar com alguma surpresa, buscar inspiração e também notícias de mim.
Me sinto muito sortudo por ter crescido aqui. Mesmo que afastado dos centros, tive acesso a uma cultura muito especial. Os vizinhos são os mesmos, o senhor que mantém criação de bichos também (sua companheira já faleceu, era uma senhora muito simpática que inclusive cuidava de mim quando eu era bem pequeno). Valorizo esse ambiente que além de saudável e tranquilo, é também muito bonito. Para mim, o paraíso na terra são os pores-do-sol de inverno que colorem a grama com um dourado indescritível.
Nessa última passagem em específico fui presenteado com dois climas distintos: céu nublado e dia ensolarado. No primeiro caso, uma neblina se assentou na mata e criou uma atmosfera mística e profunda, como se as nuvens estivessem engolindo a cidade e só aquela área existisse de verdade. Fez frio também, então pude andar por todo o gramado sentindo o vento no rosto. Havia chovido durante a semana e os galhos estavam úmidos, o capim gotejava orvalho e alguns insetos saiam de suas tocas.
Me lembro de uma vez sonhar, durante a pandemia, com esse mesmo cenário. Eu visitava com tamanha constância e comprometimento a mata que, numa das noites, confabulei imagens onde eu me sentava numa mesa toda feita de troncos de árvores com cogumelos cravados fora a fora. A neblina cercava a paisagem e lembro de tocar Kate Bush ao fundo. A pandemia realmente exigia sonhos bons para fugir da realidade.
Falando sobre cogumelos, eu suspeitava que veria alguns deles, mas não necessariamente uma espécie que até então me era desconhecida. As frutificações que vi nos últimos anos eram esbranquiçadas ou amarronzadas, mas nunca no amarelo vibrante dessa vez. Fico feito criança quando encontro um punhado deles assim, reunidos embaixo de um tronco morto. É uma cena digna de desenho.
No dia seguinte o céu abriu e fez um pôr-do-sol mágico ao fim da tarde. Levei meus materiais de desenho e fiz algumas anotações visuais dos bichos e de uma árvore curiosa no meio do bosque. Um rebanho de gados me cercou em dado momento e até fiquei receoso (por mais que as criações dali sejam bem mansas). Quando um dos bois veio caminhando em minha direção, uma vaca deu nele uma investida “chega pra lá” de volta ao grupo. Achei misterioso e me senti mais seguro. Não foi dessa vez que tive de correr de um boi (azar o meu que vestia vermelho).
Entre as árvores me sinto num templo. Agradeci pelas últimas realizações, viajei em ideias fantásticas sobre as coisas grandes e pequenas que devem se esconder no paredão arbóreo. Esses seres são bem antigos e estão ali desde antes de mim. Quando meu avô construía nossa casa, minha mãe e tias desciam um vão entre a mata lá do outro bairro para entregar a ele uma marmita de almoço. Tenho fotos antigas da minha família ali também. Foi onde soltei minha primeira pipa (e fui cortado). Foi onde passei mais de dois anos buscando refúgio num período tão incerto no mundo. Esse espaço atravessa minha história e sempre me põe a pensar nos tempos - por isso volto, para lembrar de quem eu sou e pensar no que estou construindo de mim.

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